1 ano

1 ano. De amor, de vida, de choros, de dores, de outros amores. Está quase quase a passar. ‘Ah e tal, passa tão depressa’, ‘Ah e tal, felizmente!’, digo eu, que não sou nada romântica nestas coisas do ai-que-lindos-são-os-recém-nascidos! Cocós, choros, olhar para aquela pessoinha que não fala e ter de intuir o que reio se passará na sua cabecinha, é obra, é uma obra completa, intensa dura.

Ainda hoje me queixava, eu sei, eu sei, eu sou um bocado queixinhas, e dizia que esta fase é um bocado dolorosa, estava doida para que ela crescesse ao que me responderam imediatamente ‘Ah, filhos criados, trabalhos dobrados!’. Ah!, a sabedoria popular… enfim, não sei, mas quando me refiro ao pânico e trabalho nesta fase não é tanto porque esteja a comparar o ato de mudar fraldas ao de ir à casa-de-banho com uma criança. Quer dizer não sei o que dá mais trabalho, mas a questão nem é tanto essa… O que sei é que a sensação de ter um bebé nos braços que de repente começa a chorar e começamos imediatamente a fazer contas, será fome?, não, ainda falta 1hora e ela comeu bem, terá calor, apalpa-lhe o pescoço, será desconforto? Ah, é a fralda! E se não fosse por aí continuávamos até acertar, nem que fosse na opção 34, 34, imagine-se! Mas pior que isso é quando corremos a enciclopédia de todas as opções que conhecemos, ainda pedimos opinião e chegamos à conclusão… que não sabemos o que é. Não fazemos a mais pequena ideia. Terminamos à laia de Agustina Bessa-Luís, no livro ‘Dentes de Rato’, ‘Não está nos seus dias’ e pronto contra factos não há argumentos.

E por isto senhores, por estes dias eu digo, 1 ano, felizmente. E felizmente até passou rápido. Se dá mais trabalho daqui para a frente ou não, não sei, mas tenho a certeza que será mais interessante o desafio de comunicação com um suporte linguístico do que o da adivinhação por conjeturas apenas acordadas com uma das partes- a outra parte envolvida nunca se pronunciou sobre o acordo. Nunca se viu uma criança que saiba falar desatar aos gritos e só parar quando a mãe lhe pergunta ‘Queres fazer xixi?’, a criança simplesmente grita no meio do restaurante, ‘Quero fazer xixi!’ Simples, prático, rápido e direto. E até dá milhões. De momentos bons, de discussões evitadas, de gritarias evitadas…

Eu cá sou assim. Adoro falar. Não me calo. O meu marido até diz de vez em quando, com muito carinho, que sabe que nestas coisas tenho tendência para ficar ofendida, ‘Cala-te um bocadinho querida. Não digas nada. Só um bocadinho. Tenta não estar sempre a falar ou a pensar.’ E se calhar é só isso. Nós mulheres temos isto a aprender com os homens. Parar um bocadinho às vezes. Porque na verdade só quando paramos, de pensar, de falar, é que podemos ouvir. O mundo, os outros. E talvez a MR comece a expressar-se mais quando eu me expressar menos. Talvez 🙂 Eu vou gostar disso. E tenho a certeza que vamos falar as duas até à exaustão. Do pai da criança, claro. Nós nem por isso. Está-nos na condição de fêmeas 🙂 Por isso, sobretudo por isso, é que esta fase não tem a graça suficiente.

Vergonha

Quando engravidei sentia-me plena. Assim… como se tivesse o rei na barriga. E quem tem o rei na barriga não precisa de mais nada nem de mais ninguém. ‘Eu consigo’ parecia ser o meu pensamento constante. E sonhava imenso… Sonhava que vinha lá um tsunami (um dos meus maiores medos) e que eu começava com dores de parto, então, antes do tsunami chegar eu tinha a bebé sozinha, cortava o cordão umbilical com os dentes (desculpem lá pela imagem), pegava na criança recém-nascida e ainda tinha tempo de desatar a correr e fugir da ‘onda’. Acordava surpreendentemente reposta, com a sensação de dever cumprido, de que perante o pior cenário eu tinha uma solução, que até tinha resultado e tudo, bolas!, eu era CAPAZ!

A criança nasceu e, de um dia para o outro, eu sentia-me para o mundo como a amiba para o universo. Sentia-me pequenina, vulnerável. Sentia-me… vá, deprimida. Sim não há outra forma de o dizer. Desde que a MR nasceu que fui sentindo hora após hora que não estava bem. Como se não aguentasse o tamanho dos sentimentos que me inundavam. Os bons e os maus. Como se fossem tão grandes que de repente eu me tornava pequena demais para eles. Para eles caberem em mim.

O ponto alto deste estar em baixo foi quando comecei a ler blogues que a minha madrinha me ia sugerindo, de recentes mães que essencialmente partilhavam as suas experiências, e de repente decidi. ‘Vou escrever um blogue’. E pronto, cá estou eu. Ajudou-me imenso, quer a soltar e espantar os meus fantasmas como a ouvir a opinião de outras mães nos meus comentários e conhecer outros blogues com partilhas tão diferentes, tão idênticas e tão reconfortantes ao mesmo tempo.

Nos últimos posts que escrevi Trabalho e Hipocondríaca e outros medos recebi alguns comentários de incentivo e discussão de ideias (que bem que sabem), e referia a Marta, do Passinho a Passinho que há alguma vergonha no não ser capaz de dar conta de todos os recados em casa enquanto se está com o bebé. Como se pelo facto de estarmos em casa tivéssemos inequivocamente tempo para tratar de loiça, roupa, camas, chão, ah!, é verdade bebé, e ,enfim, de certeza que em vez de perdermos tempo a ver televisão ainda conseguiríamos trabalhar alguma coisa. A questão que refiro aqui já nem se prende com o facto de ser possível ou fácil ou difícil fazer isto tudo, trata-se dessa vergonha que sentimos.

Ainda quando estava na maternidade, no segundo dia, comecei a chorar e não conseguia parar. Entrei na casa-de-banho e quando a pediatra chegou para fazer a avaliação da MR eu não saí porque estava cheia de vergonha. Vergonha que me vissem assim. A mesma vergonha que a Marta falava sobre não conseguir ter a casa arrumada sem ajuda de alguém que lá fosse tratar SÓ disso. Ainda na gravidez percebi que ia precisar de ajuda para a casa e tratei de a pedir, mas confesso que quando me vieram as lágrimas aos olhos na maternidade só me consegui esconder.

E não sei se era só uma questão de sair da casa-de-banho e pedir ajuda porque há realmente ainda um grande estigma perante como a mãe se deve comportar ou o que é aceitável ea partir de quando é ter falta de capacidade de controlo ou de organização, etc.

Sim, antes de ter a MR tinha muitas opiniões sobre muitas coisas relacionadas com bebés e maternidade. Hoje quando me lembro de algumas só me apetece ligar a algumas amigas que foram mães antes de mim e dizer ‘Desculpa o que pensei de ti’. E efetivamente cheguei a fazê-lo.

Infelizmente contam-se pelos dedos de uma mão as mulheres, experientes ou não, que conseguiram ajudar nestes meus sentimentos, ou dar-lhes sentido. Parece que a sociedade aceita o ‘Pois é, é assim. Calha a todas, agora calha-te a ti.’ como se não fosse preciso resolver, falar, pensar estar atento a estes sinais de cansaço, desespero, etc.

A expressão ‘os homens não choram’ não é algo que seja exigido aos homens apenas, a vergonha do choro, do não ser suficiente, é algo que alimentamos socialmente e parece que é suposto sermos personagens planas de um livro, capazes de passar pelos acontecimentos da nossa vida sem que estes nos mudem, nos alterem, nos deixem felizes ou deprimam.

Bom, não tenho vergonha, confesso-o, não sou coerente. Já disse coisas que mais tarde ‘desdisse’ (sem que me arrependa de as ter dito em primeiro lugar), e já pensei coisas com toda a convicção disponível em mim das quais hoje quero distância. E por isso da próxima vez que tiver um filho choro onde tiver que chorar. E não para dar uma lição a ninguém nem para mostrar ao mundo que o quero mudar ou ser superior na minha humanidade. Simplesmente para ser fiel a mim e assim poder lidar melhor com os meus sentimentos difíceis o suficiente sem ter de estar a tentar lidar também como o que sinto sobre os meus sentimentos.

Faz sentido? Penso que sim. Mas se por acaso na altura decidir de outra forma não me envergonharei disso também. Só espero que as minhas decisões me encaminhem no sentido de mudanças e alterações positivas. E mais não posso fazer…

sexta feira

É o que se chama uma ‘sexta feira 13’. Desta vez nem foi preciso o número para ilustrar.

Em vez de acordar às 8h, como costume, acordou às 6h. Isso alterou completamente o horário da mamada. Tínhamos uma consulta. Levámos a madrinha de arrasto que é uma querida e uma ajuda imprescindível. Acabou por ter fome à hora, quase, de sair de casa e eu, claro, tive de lhe dar de mamar. Quando mamou estava distraída com a minha pressa e começou a palrar em vez de mamar. Normalmente teria insistido, mas depois de já termos passado a hora de sair de casa acabei por decidir pegar nela e ir para o centro de saúde. Chovia torrencialmente, fez trovoada, foi o dia que em Lisboa caiu granizo feito neve. O meu marido teve de ajudar um colega a ligar o carro que foi abaixo com o radiador congelado.

O centro de saúde fica no meio da cidade, sem qualquer parque perto e com hipóteses de estacionamento muito reduzidas. Nos dias de chuva intensa essas hipóteses ficam ainda mais reduzidinhas… A minha filha teve de ficar num centro de saúde diferente do meu. É uma estória complicada. Eu estou registada no centro de saúde da cidade onde sempre vivi, até à 4 anos atrás. Na altura atualizei a minha morada e pronto. Mas o centro de saúde tornou-se uma USF, significando que não pode aceitar mais ninguém que não seja expressamente da lista de freguesias que serve. Ou seja, quando a minha filha nasceu não podia ser lá inscrita pois não era residente nessa lista de freguesias, apesar de ser do mesmo concelho. Ora o meu marido estava no centro de saúde da sua antiga residência com um médico de família atribuído. Disseram-nos que não sendo essa uma USF poderíamos inscrever lá a MR. A outra opção seria inscrevê-la no centro de saúde atribuído à nossa freguesia mas teria de ser inscrita com um dos progenitores. Pois para nos inscrevermos nesse centro ficaríamos na lista de doentes sem médico atribuído o que nos fez pouco sentido uma vez que nos considerávamos bem servidos a esse nível. Pensámos então em ir inscrevê-la com o pai mas quando lá chegámos disseram-nos que se atualizassemos a morada do Z ele seria transferido para o centro da sua residência na tal lista de doentes sem médico. A MR só seria lá inscrita se déssemos a morada dos meus sogros, a morada antiga do Z. Bom… e no meio disto tudo foi assim que fizemos. Enfim, no fundo a solução possível num sistema que desvirtua completamente o verdadeiro conceito do médico de família, num país com carência de médicos em todas as áreas.

Voltando à estória inicial, quando finalmente chegámos ao centro de saúde, com a chuva, a mamada fora de horas, a falta de estacionamento prioritário, fez com que nos atrasássemos 25 minutos. Foi mau, péssimo, vergonhoso. Detesto atrasar-me assim, e com a MR tem acontecido algumas vezes. Mas nunca tanto tempo numa consulta. Cheguei lá afogueada e não havia senhas, tivémos de esperar pelo segurança, por fim chegámos à receção. A senhora que nos atendeu diz-nos alto e bom som que o médico não nos vai atender porque nos atrasámos. Podemos portanto ir para casa. Fico meio perdida sem saber o que pensar nem o que dizer. Recordo-lhes que já esperei 1,30h por uma consulta marcada. Eles dizem que nada a fazer, as consultas estavam a cumprir horários portanto podíamos ir para casa. Nem no final nos atendiam, era um não redondo sem direito a resposta nem negociação. Fiquei surpresa, irritada, humilhada. Pensei no que ia fazer, pedir o livro de reclamações, ir embora… Suspiro… Com chuva, desgosto, almoço a aproximar-se, acabei por decidir vir para casa.

Fui fazer a sopa da MR com carne pela primeira vez. Tinha experimentado maçã há 2 dias e ela tinha-se engasgado, tinha de introduzir este ingrediente muito bem passadinho, Fiz a sopa, triturei tudo, ela já estava impossível, entra no carro, sai do carro, chuva, a minha irritação, as duas sozinhas a tratar da sopa, eu preparava ingredientes, ela chorava. Ia com a minha madrinha buscar o meu padrinho ao aeroporto, acabei por não conseguir. Novo suspiro. Lá acabei a sopa, ela desesperada. Percebi que a sopa não estava bem triturada no meio da pressa. Liguei ao meu pai,pedi ajuda, que viesse para cá por favor. O meu pai lá veio. Acabei a sopa, dei-lha, não gostou. Assim, cheia de fome e recusou-se a comê-la. Tinha de fazer outra. Lá fui eu a correr, o meu pai com ela no colo a passarinhar… Lá comeu (em 40 minutos) a sopa nova. Aquilo tudo acabou pelas 15h, parecia que tinha passado um dia inteiro. Lembrei-me que ainda não tinha comido nada. Também não tinha nada em casa porque ainda não tínhamos feito compras. Comi uma pratada de papa cérelac (essas agora nunca faltam) para pequeno-almoço, almoço e lanche.

O meu pai lá nos deixou sozinhas e eu lá contei os minutos (foram tantos) até o maridão chegar e render a minha guarda. Mas mal chegou já eram horas do banho e depois papa e depois adormecer. Vá lá que deu para vermos um filminho que nos tinham recomendado enroscadinhos no sofá para entrar no fim de semana em beleza. No dia a seguir acordei com uma constipação brutal. Aproveitei, como sempre sermos 2 para 1 e tratei de máquinas de roupa, loiça, secar roupa, dobrar, arrumar… Domingo ainda fomos trocar prendas de Natal. Quando o fim de semana acabou fiquei com a sensação de que precisava de um dia para descansar do fim de semana. Disse um dia? Por favor, precisava de um fim de semana…

Não me entendam mal, esta coisa da maternidade é mesmo uma experiência linda, com tudo o que há de melhor. E de mais difícil. É como se tivéssemos de deixar de existir para permitir a uma criança a sua existência. E os primeiros tempos resumem-se basicamente à luta pelo razoável desse meio e bom termo. E por isso fico-me assim, apaixonada e exausta. Tudo ao mesmo tempo.