Vergonha

Quando engravidei sentia-me plena. Assim… como se tivesse o rei na barriga. E quem tem o rei na barriga não precisa de mais nada nem de mais ninguém. ‘Eu consigo’ parecia ser o meu pensamento constante. E sonhava imenso… Sonhava que vinha lá um tsunami (um dos meus maiores medos) e que eu começava com dores de parto, então, antes do tsunami chegar eu tinha a bebé sozinha, cortava o cordão umbilical com os dentes (desculpem lá pela imagem), pegava na criança recém-nascida e ainda tinha tempo de desatar a correr e fugir da ‘onda’. Acordava surpreendentemente reposta, com a sensação de dever cumprido, de que perante o pior cenário eu tinha uma solução, que até tinha resultado e tudo, bolas!, eu era CAPAZ!

A criança nasceu e, de um dia para o outro, eu sentia-me para o mundo como a amiba para o universo. Sentia-me pequenina, vulnerável. Sentia-me… vá, deprimida. Sim não há outra forma de o dizer. Desde que a MR nasceu que fui sentindo hora após hora que não estava bem. Como se não aguentasse o tamanho dos sentimentos que me inundavam. Os bons e os maus. Como se fossem tão grandes que de repente eu me tornava pequena demais para eles. Para eles caberem em mim.

O ponto alto deste estar em baixo foi quando comecei a ler blogues que a minha madrinha me ia sugerindo, de recentes mães que essencialmente partilhavam as suas experiências, e de repente decidi. ‘Vou escrever um blogue’. E pronto, cá estou eu. Ajudou-me imenso, quer a soltar e espantar os meus fantasmas como a ouvir a opinião de outras mães nos meus comentários e conhecer outros blogues com partilhas tão diferentes, tão idênticas e tão reconfortantes ao mesmo tempo.

Nos últimos posts que escrevi Trabalho e Hipocondríaca e outros medos recebi alguns comentários de incentivo e discussão de ideias (que bem que sabem), e referia a Marta, do Passinho a Passinho que há alguma vergonha no não ser capaz de dar conta de todos os recados em casa enquanto se está com o bebé. Como se pelo facto de estarmos em casa tivéssemos inequivocamente tempo para tratar de loiça, roupa, camas, chão, ah!, é verdade bebé, e ,enfim, de certeza que em vez de perdermos tempo a ver televisão ainda conseguiríamos trabalhar alguma coisa. A questão que refiro aqui já nem se prende com o facto de ser possível ou fácil ou difícil fazer isto tudo, trata-se dessa vergonha que sentimos.

Ainda quando estava na maternidade, no segundo dia, comecei a chorar e não conseguia parar. Entrei na casa-de-banho e quando a pediatra chegou para fazer a avaliação da MR eu não saí porque estava cheia de vergonha. Vergonha que me vissem assim. A mesma vergonha que a Marta falava sobre não conseguir ter a casa arrumada sem ajuda de alguém que lá fosse tratar SÓ disso. Ainda na gravidez percebi que ia precisar de ajuda para a casa e tratei de a pedir, mas confesso que quando me vieram as lágrimas aos olhos na maternidade só me consegui esconder.

E não sei se era só uma questão de sair da casa-de-banho e pedir ajuda porque há realmente ainda um grande estigma perante como a mãe se deve comportar ou o que é aceitável ea partir de quando é ter falta de capacidade de controlo ou de organização, etc.

Sim, antes de ter a MR tinha muitas opiniões sobre muitas coisas relacionadas com bebés e maternidade. Hoje quando me lembro de algumas só me apetece ligar a algumas amigas que foram mães antes de mim e dizer ‘Desculpa o que pensei de ti’. E efetivamente cheguei a fazê-lo.

Infelizmente contam-se pelos dedos de uma mão as mulheres, experientes ou não, que conseguiram ajudar nestes meus sentimentos, ou dar-lhes sentido. Parece que a sociedade aceita o ‘Pois é, é assim. Calha a todas, agora calha-te a ti.’ como se não fosse preciso resolver, falar, pensar estar atento a estes sinais de cansaço, desespero, etc.

A expressão ‘os homens não choram’ não é algo que seja exigido aos homens apenas, a vergonha do choro, do não ser suficiente, é algo que alimentamos socialmente e parece que é suposto sermos personagens planas de um livro, capazes de passar pelos acontecimentos da nossa vida sem que estes nos mudem, nos alterem, nos deixem felizes ou deprimam.

Bom, não tenho vergonha, confesso-o, não sou coerente. Já disse coisas que mais tarde ‘desdisse’ (sem que me arrependa de as ter dito em primeiro lugar), e já pensei coisas com toda a convicção disponível em mim das quais hoje quero distância. E por isso da próxima vez que tiver um filho choro onde tiver que chorar. E não para dar uma lição a ninguém nem para mostrar ao mundo que o quero mudar ou ser superior na minha humanidade. Simplesmente para ser fiel a mim e assim poder lidar melhor com os meus sentimentos difíceis o suficiente sem ter de estar a tentar lidar também como o que sinto sobre os meus sentimentos.

Faz sentido? Penso que sim. Mas se por acaso na altura decidir de outra forma não me envergonharei disso também. Só espero que as minhas decisões me encaminhem no sentido de mudanças e alterações positivas. E mais não posso fazer…

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