amores a 2

Tenho 2 primas que tiveram bebé há pouquinho tempo. A graça maior é que as nossas mães eram todas primas e tiveram grávidas ao mesmo tempo. Nós resolvemos repetir a gracinha… Tenho falado com elas e vejo a delícia do estado que se encontram, o namoro pegado a três, e o empenho especial de um dos pais, o R, que se sente absolutamente rendido (às boas emoções). A família toda está num mel pegado, mas aqueles dois estão especialmente enamorados, a minha prima e o marido. É lindo só de ver, e impossível não me recordar das nossas primeiras vezes e destas primeiras emoções a três.

Quando a MR nasceu, nasceu em mim uma mãe. Essa mãe foi crescendo e ainda está o construção. Cresce com a MR. A minha mãe sempre disse que as mães são construções dos filhos. E o nosso grande Herberto Helder explica isto tão bem, ‘As mães são as mais altas coisas que os filhos criam’. Mas os pais estão ali. Ficam a olhar-nos. A ver a nossa barriga crescer. Sentem-se entusiasmados sem estarem a sentir nada. Vem tudo de fora. E quando se sentem pais pelas primeira vez não é nada óbvio, nem linear, nem necessariamente progressivo. Às vezes parece que andam para trás e para a frente sem ordem nenhuma específica.

Dizem que as mulheres se sentem mães quando ouvem o coração do bebé pela primeira vez. No meu caso não posso dizer que tenha sido esse o momento. Claro que quando ouvi aquele coraçãozinho fiquei em silêncio, parece que o meu parou de bater por um bocadinho só para ouvirmos melhor. Foi lindo, mágico, foi emocionante. Mas foi na consulta em que a obstetra nos revelou o sexo do bebé que eu me senti mãe. Deixei de estar grávida de um bebé para passar a estar grávida da minha filha especificamente. Já não era a sementinha como lhe chamavamos, mas agora tinha nome, já quase tinha cara. E eu era mãe dela! Dizem que os homens se sentem pais quando têm o bebé pela primeira vez nos braços. E o Z… bom, desfez-se quando pegou naqueles 2780 quilos, ria e chorava tudo ao mesmo tempo 🙂 E eu ria e chorava a olhar para ele. Para os 2 🙂

Mas o tempo foi passando e eu fiquei muito em baixo e profundamente sensível e sensibilizada e o Z foi-se encontrando naquele meu novo eu como pode. O espaço dele já não era o mesmo. Agora em vez de vomitar eu dava de mamar. Ele já nem sabia bem qual era a sua versão despreferida. E quando nos perguntavam se estávamos a gostar ele recusava-se responder para evitar chocar. Eu amei cada dia da minha maternidade. Profundamente. E senti dolorosamente muitos desses dias também. E o Z foi sendo mais e menos pai à medida que lhe era possível. À medida que se ia convencendo que aquela barriga que ocupava imenso espaço na cama durante uns 6 meses, de repente, de um dia para o outro, se tinha tornado naquilo. Naquela coisinha que não falava, só chorava, às vezes dormia, outras não, fazia cocó e comia. E nos primeiros tempos era difícil arrancar-lhe um sorriso de felicidade genuina do rosto.

A MR foi crescendo e com ela também nós. Fomos e estamos ainda a encontrar o nosso espaço. A definir o espaço dela. A perceber o que é isso que sobrou de nós, depois do casal e da parentalidade onde estão aqueles dois indivíduos que conhecíamos tão bem há uns 2 anos atrás? Não é fácil, não foi fácil.

Mas tínhamos um sonho. E decidimos que queríamos encontrar-nos e fortalecer-nos. E que apesar de todas as dificuldades e toda esta imensidão de emoções e sensações, a MR foi de longe, e de perto, a melhor coisa que nos aconteceu na vida. E agora já ri. E dá gargalhadas. E mexe em tudo. E não quer estar sentada, e não quer estar deitada, e estica-se toda para se levantar, e diz ‘aaaaaaaaaaaaaaaaá!’ quando nos vê… e agarra em tudo e quer comer o que nós comemos, e olha para nós… E olha para o pai apaixonada e para mim cúmplice… E é, de facto, uma delícia. E então o Z queixa-se menos. E fica todo saudoso quando se afasta. E não lhe resiste e ajuda mais em casa. E sente-se mais pai, porque um pai se constrói no mesmo tempo que a mãe. Mas a sua gravidez é externa, porque a barriga é só uma mimesis. E agora a MR tem quase 8 meses e o Z sente-se pai. E damos a papa juntos. E estamos na cozinha a fazer o jantar e começamos a cantar porque a caganita é uma chatinha para comer e tem de ser entretida e passeada e com cada colher de papa vai um verso de uma canção. Hoje corremo-las todas. Começámos com as canções infantis que a minha mãe me cantava, cantei as do babytv que ela adora e já ia nas canções da revolução (também cantadas pela minha mãe) quando chegámos à última colherada. Noutra altura teria sido uma canseira, mas hoje ríamos a cantar canções e fazer vozes diferenciadas e a inventar instrumentos para a loja do Mestre André…

Os primeiros tempos não foram fáceis. Foram lindos, sim. Mas dolorosos também. Isto de ser mãe constrói-se. Começa com uma barriga e depois dá num bebé. Mas isto de ser pai é mais complexo. Começa com um bebé. E depois dá um pai. E nós aqui temos o nosso. A terminar o seu período de gestação. ❤