8

8 meses. Dizem os orientais que devemos ter o número 8 na nossa data de aniversário. A MR é uma sortuda que o tem duas vezes. E este mês casou os meses, 8 meses a dia 8. Está uma gracinha. Senta-se muito bem, mas só quer estar de pé. Ri-se muito e enche-se de vergonha… Enterra a cabecinha no meu pescoço. Olha as pessoas de lado e deixa toda a gente ko. Olha para mim quando se pergunta ‘Onde está a mamã?’ e faz o mesmo ao pai. Dá-me beijinhos. Eu peço ‘Dá um beijinho à mamã.’ e ela lambisca-me a cara toda… Dá turras e pede colo.

Com os 8 meses comecei a introduzir o iogurte no lanche, em vez de mamada. Quando ia vestir-me, uns dias depois desta introdução, diz-me o Z, ‘Porquê soutien de amamentação?’ Esqueci-me. Já não preciso. Só amamento de manhã e de noite. Não preciso usar soutien de amamentação. Ahhh… a graça, o desejo, o entusiasmo… o medo… sei lá… Voltar à lingerie ‘antiga’. Ter de enfrentar definitivamente o corpo novo face ao ‘antigo’. Pior ainda que o teste das calças de ganga. This is it. A prova da roupa interior.

E cheia de medo lá fui eu à gavetinha empoeirada dos soutiens a condizer com as cuequinhas. Testá-los no meu quase peso normal. No meu corpo que apesar de ter recuperado os quilos, não atingiu ainda a forma. As partes que precisam de ser tonificadas. A cabeça que precisa de construir o novo corpo. O significado da imagem no espelho. O que é que eu faço à memória que tenho daquele corpo ‘antes’? Era tão mais fácil manter os soutiens de amamentação. Pelo menos estes não traziam memória de nenhum corpo.

Olho para o meu armário que deita, mesmo, roupa por fora, e não consigo usar nada daquilo. Quero outra coisa. Outras roupas. Achei que queria recuperar o meu corpo àquilo que ele, eu, era. Mas eu já não sou o que era. E não quero recuperar esse corpo. Preciso de construir este. Este que eu tenho agora e vejo no espelho mas ainda não está na minha cabeça. E para vestir esse corpo novo eu preciso de um novo guarda-roupa. Porque as roupas antigas não estão à medida do meu novo eu.

8. 8, número feminino, absolutamente. E é assim que eu vejo o meu corpo agora. Em vez vez do I que sempre me senti, agora sou um 8. Dei à luz, sou mãe, sou mulher. A forma do 8, eterno, curvilíneo, elegante e fértil. Apaixonada pelo 8.

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Gerações

avozinha

A minha mãe diz que a minha avó se melhorou como avó e que agora se aperfeiçoou como bisavó. Começo a pensar que as mulheres vão evoluindo a cada geração que lhes acontece. Primeiro como mães, depois como avós e depois como bisavós. E desde que a minha filha nasceu a minha avó só tem sorrisos para ela. Até eu perdi um bocado da gracinha.

A minha avó é assim, muito de ideias fixas, das suas próprias opiniões. Claro que a podemos fazer mudar de ideias, mas temos de a convencer com argumentos muito convincentes. Caso contrário fica convicta e ninguém a pode demover.

Tem estado connosco cá em casa. Duas a três vezes por semana, durante a tarde. Fica com a caganita, eu estou sempre por perto, mas sempre vou pondo coisas em dia, voltei a pegar no trabalho, ganho umas 2 horas que não existiam nos meus dias, é delicioso. Este trabalho é partilhado com a minha madrinha que vem nos dias que a avozinha não vem. Tem sido a minha salvação mental que estava a sentir-me um pouco louca sempre com um bebé que só quer colo enquanto tratava da roupa, loiça, casa e comida, 7 dias por semana. Sim 7. Bem sei que ao fim de semana tenho cá o meu super homem, que é um querido e um ‘cheio de boa vontade’. Mas parece que todas as mulheres se queixam do mesmo, por muito que eles façam nós fazemos sempre mais. E à segunda feira parece que ainda há mais trabalho que nos outros dias. É o arrumar do fim de semana.

Estamos aqui as 3 hoje. Havia literalmente quilos de roupa por tratar. Era fazer máquinas de roupa suja, tirar roupa do estendal, pôr roupa a secar, dobrar e arrumar. Isto da chuva atrasa as tulhas todas de roupa. E enquanto a MR fazia uma sesta longa (que é coisa rara) começámos a dobrar e arrumar roupinha, as duas sentadas no sofá e a pôr a conversa em dia. As mãos da minha avó trabalham a um ritmo incrível e enquanto eu olhava para ela e imaginava as gerações de mulheres a tratar de roupa como quem lava sentimentos, diz-me a minha avó, ‘Sabes o que isto me faz lembrar?’ faz pausa. ‘Quando ia com a minha mãe lavar no rio. Depois era secar e dobrar a roupa’. E olhou para mim nos olhos com aquele olhar de quem partilha gerações e estórias… e história. De quem compreende muito mais do que aquilo que diz, aquele olhar que até parece que viaja no tempo. Minh’ avó.