saudades

‘Vais ter saudades’ Não vou, não. ‘Ah, isso é o que dizes agora’ Não é, não. Dizem-me que por muitas queixas que tenha nesta fase mais tarde sinto falta deste cheirinho, deste tamanho, destes gestos. Hmm, não obrigada. Sim, isto é delicioso. Mas também tem algumas coisas mais difíceis de gerir. E é nisso que eu acho que a natureza é tão sábia, cada fase tem delícias e amarguras, para que nos saiba bem gozá-la mas para que não nos deixe o sabor apertado das saudades.

E queixo-me. Queixo-me sim, porque acho que é um direito meu queixar-me e porque há momentos realmente difíceis. Mas também vivo em pleno gozo todos estes momentos meus por direito. Meus. E foi por eles que escolhi ficar em casa até aos seus 3 anos ( a ver se consigo), e é por isso que lhe dou todas as refeições, e por isso que lhe dou todos os dias banho e a visto com carinho e a adormeço nos meus braços 3 vezes por dia. Isso cansa-me e no final do dia estou esgotada. Saudades de quê, então? Do lado maravilhoso destas tarefas. De sentir o cheirinho dela a adormecer, de lhe dar beijinhos quando troco de roupa, dos risos, dos beicinhos, das primeiras palavrinhas. E por isso vivo estes momentos com toda a intensidade e tudo o que têm para dar. Saudades de quê então? Estes momentos darão lugar a outros, que farão todo o sentido localizados no novo tempo e espaço e nessa altura estarei a vivê-los. Quero ter outro bebé, não quando tiver saudades daquilo que vivi com a MR, mas quando desejar voltar a ter outra relação maternal. Não pela repetição, mas pelo gozo de uma nova experiência, mais uma conexão, mais de nós para amar.

As dores desta fase, os medos, o terror, a primeira vez, felizmente passa. E disso não terei saudades. Nenhumas. De olhar para ela e ter medo de tudo, e se o seu peso está bem, e conciliar trabalho, e casa e marido…. Ouvi-la chorar no carro de cada vez que fazemos uma viagem, não lhe poder explicar coisas… suspiro. Sim são coisas que eu vivi com muita intensidade. É uma coisa pessoal, admito e que tem a ver com a minha forma (talvez um pouco ansiosa?) de viver a vida.

Eu (penso que) percebo o que dizem, enquanto estamos nesta fase queixamo-nos por vezes de coisas que mais tarde contextualizamos e à luz do ‘não era assim tão mau’, vem a sensação do ‘podia ter aproveitado melhor’. E é por isso que apesar de me queixar vivo cada cheiradela intensamente, cada mimo de forma única, cada palavrinha e passinho… para que não fique nada por sentir, aproveitar, desta fase. E mais tarde vão ser memórias maravilhosas situadas no tempo. E os afetos… estarão concentrados a viver a fase presente.

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Mulheres

O meu querido avô faleceu há 3 anos e meio. Uma tristeza, uma desgraça. Uma dor, a perda que mais me feriu. uma parte de mim morreu um bocadinho também com Ele. Meu querido avô, homem bondoso, teimoso e cheio de afetos. A minha maior dor é que nunca tenha conhecido o meu marido. Nem a minha filha. Mas como diz a minha madrinha as pessoas só morrem de verdade se as esquecermos. Se deixarmos de falar delas.

E eu não esqueço o meu avô. Não deixo de falar dele. E nestes pensamentos parece que o sinto comigo, perto de mim quando lembro melhores e piores momentos. Quando me lembro como me irritavam certas coisas que fazia. Ou como quando ficava feliz quando me surpreendia. Fazia-me serenatas de tarde na sua guitarra. E dizia, ‘Isto era o que se tocava às raparigas quando eu era novo. Ah, cara linda, se eu tivesse menos 20 anos não me escapavas!’. E riamos os dois.

Era um beijoqueiro. Andava de volta da minha avó e dizia, ‘Dá-me um beijinho!’, que invariavelmente o sacudia retorquindo ‘Olha a miúda!’. Quando dormia a sesta ia para a sala e eu ia a correr para lá e ficava a brincar com a companhia do seu ressonar suave. Se o acordava ficava pior que estragado. Mandava-me para outro sítio qualquer da casa. Mas se lhe dava um beijinho ficava todo meloso e rabujava entre dentes uma cançãozinha que mal se ouvia.

Passeámos imenso os 3. Eu, o meu avô e a minha avó. Fui neta única durante 12 anos e filha única até aos 15. O meu avô viu-me crescer ensinou-me coisas sem fim. Valores, engenhoquices, a jogar às cartas, adivinhas… e ainda me deu explicações numa matéria de física na faculdade.

Era um tipo às direitas. Um chato, falava imenso, discutia e era teimoso. Um amor. Dava beijinhos aos homens de quem gostava muito. Dava beijinhos ao meu pai que era seu genro. E a mim dava-me imensos beijinhos. E se lhe perguntava se estava bonita dizia-me ‘Tu estás sempre linda. Qualquer trapinho te fica bem’. Só não gostava de me ver de verde. Era um benfiquista ferrenho e um anti-sportinguista sem cura.

No dia da Mulher, todos os anos me ligava. ‘Filha, estou a ligar-te porque sei que é dia da Mulher. Mas não é para te dar os parabéns. desejo-te bom dia como em qualquer outro, porque eu acho que o dia da Mulher tem de ser todos os dias, ou não? E já pensaste, não há um dia do Homem. Porquê? Porque o seu dia é todos os dias? Também o da mulher o devia ser. Existir o Dia da Mulher sem o Dia do Homem não é discriminação para o Homem, é discriminação para a Mulher. Portanto filha desculpa lá, mas hoje não te posso desejar um feliz dia.’ A todas as mulheres, um bom dia como noutro qualquer.