Baixar as espectativas

Não é novo. É um assunto novo nestes últimos 70 anos, mas tem vindo a ser mais e mais explorado. Eu já falei disso noutros posts, já toda a gente referiu isso pelo menos uma vez à hora de jantar ou quando chega à cama. A Sónia Morais Santos escreveu um livro sobre culpa maternal. É difícil ser pai e mãe. Como dizem os ingleses, ‘parent’. É difícil, mas tem sido daquelas coisas em que o passar do tempo de experiência da humanidade não tem ajudado. Parece que piora até, se é que isso é possível.

Porque agora o instinto não chega. Há imensas ponderáveis. Há 800 manuais (pelo menos) sobre o assunto e mesmo assim também estes não chegam. Levamos o bebé ao pediatra todos os meses, comunicamos ao pediatra todas as pontinhas de febre que os nossos filhos têm. E isso parece que também não chega.

Não chega para nos sossegar. Para que não entremos no domínio da insanidade. Até parece que alimentam tudo isso. E não me interpretem mal, não estou nem contra o sistema, nem a desdenhar todas estas coisas, estou assim como que a escreve-las todas juntas, assim para avaliar significados, sei lá. Como todos os outros pais eu também só procuro a paz de espírito, a luz.

E nesta busca incessante de batimentos cardíacos mais suaves descobri Jennifer Senior, escreveu um livro sobre o qual fiquei muito curiosa, e deu um TED Talk sobre o dito. A palestra chama-se ‘For parents happiness is a very high bar’. Para os pais a felicidade é uma barra pesada. E é mesmo. Ficamos tão concentrados em deixar os nossos filhos felizes que não percebemos que estamos a enterrar-nos numa angústia que arrasta todo o agregado familiar. Entramos em crise. Porque quando pensamos na felicidade dos filhos essa é quase uma coisa abstracta.

Eu explico o meu ponto de vista, e reforço, não me interpretem mal, felizmente a história alterou o lugar que as crianças ocupavam no mundo. Eram pequenos adultos que sabiam menos, estragavam mais, chateavam e traziam algum dinheiro/comida para casa. Hoje têm direitos, têm a nossa atenção, têm o nosso dinheiro, o nosso amor e a protecção de toda a sociedade. Ótimo! Espetacular, nada contra.

Mas de facto este estado de espírito é novo na história da humanidade. Tão novo que temos de lidar com as novas consequências que vêm com ele. E as novas consequências são depressão, ansiedade, crise. Crise conjugal, familiar, social. Eu quando engravidei decidi que queria ficar em casa com a minha filha até aos seus 3 anos. E, claro que continuaria a trabalhar. A partir de casa. E ia ter 3 filhos e ficar com cada um 3 anos em casa, cada um teria a diferença de 2 anos e meio e seria tudo perfeito. Só eu é que não fui capaz. comecei a chorar depois da MR nascer e ainda não parei. Desde sentimento de culpa por não conseguir trabalhar tudo o que precisava e de me sentir falhada profissionalmente, a sentir-me desamada e incapaz de amar neste coisa nova que éramos nós os dois pais de alguém, até me sentir péssima mãe por me sentir a precisar de espaço pessoal e desejar até deixá-la num infantário.

Como é que eu podia falhar naquilo que a humanidade faz desde que existimos? A coisa mais fácil de sempre, supostamente, porque todos os seres vivos têm uma. Ser mãe. E realmente anos e anos de humanidade não nos prepararam para isto. Ser mãe, ser pai, ser trabalhador, marido e mulher, amigo, familiar, tudo ao mesmo tempo. Temos de ser capazes de fazer cada vez mais e melhor. E o pior de tudo é que os anúncios televisivos, os livros de auto-ajuda, as estórias de vida inspiradoras, tudo nos encaminha para a ideia de que para sermos só precisamos querer muito e trabalhar em igual medida. E não é. Não é só uma questão de trabalho, vontade e inspiração divina. A vida é feita também de coincidências, de circunstâncias, de boa e de má sorte. E não faz sentido que nos sintamos responsabilizados por tudo o que nos acontece, por todas as nossas conquistas atingidas ou sonhos por alcançar.

E só isto descansa. Não é baixar braços nem armas, nem desistir. é relativizar. Acreditar que damos o melhor que podemos, a nós aos nossos pais, aos nossos filhos, aos nossos amigos. Que temos a capacidade de nos corrigir sempre e de melhorar, mas de descontrair. Acreditando que não temos controlo de tudo. Muito menos da felicidade dos nossos filhos. Podemos tratá-los bem, dar-lhes amor, escolher as melhores escolas para eles, tratar da sua alimentação o melhor que sabemos. E esperar, como diz Jennifer Senior, que a felicidade chegue por estes caminhos.

Para eles, por eles. E para nós. Por nós.

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Este é um post sobre arquitetura

Trabalhar_com_Arquitectos_Frases

Esbarrei com esta reportagem há poucos dias, através de uma amiga. Não conhecia o fotógrafo, vi, revi e vi as suas outras reportagens. Parece que este fotógrafo tem muito que contar e vale a pena dar uma olhada. No seu caso há imagens que valem mesmo mais de 1000 palavras. E por isso acompanha as suas fotografias de explicações muito sucintas, deixando que a objetiva nos narre uma estória.

Aquela que me prendeu foi a ‘The Condo’, o condomínio privado ‘Bella Guarda’ em Vila Franca de Xira, inacabado por insolvência da construtora. Como tantos outros espaços abandonados pelo país fora este condomínio foi alvo de ocupação por pessoas que se viram sem outra hipótese nem saída. Os novos sem-abrigo têm abrigo. Vivem em condomínios de luxo, inacabados, sem portas nem janelas. Parece a triste canção do Vinícius de Moraes,

‘Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque pinico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos bobos
Número zero’

O próximo número da revista arqa (revista de arquitetura e arte) será dedicado às ruínas. As ruínas que já foram uma afirmação estética no romantismo agora povoam as cidades por falta de dinheiro e oportunidade para serem recuperadas. Quando estão livres do perigo de queda eminente são invariavelmente ocupadas por pessoas que se viram presas neste pior lado do sistema. Invariavelmente vemos estes espaços devolutos com os vãos violentamente fechados em tijolo e argamassa. Mas a novidade são estas ruínas da crise financeira, não são prédios devolutos, são construções inacabadas. Ninguém fecha os seus vãos com tijolo porque às vezes nem há paredes. Os vão são fechados com restos de madeira, lençóis ou pedaços de plástico pelos novos moradores, apenas para evitar que a chuva entre. Nas piscinas dos condomínios de luxo lava-se agora roupa. Estamos perante um novo tipo de ruína que é um bocado como a pescada, antes de o ser já o era.

Recentemente a Ordem dos Arquitetos lançou uma campanha incentivando o trabalho com arquitetos. A mensagem era simples e muito clara, ‘Olhe à sua volta. Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’. E viram-se muitos cartazes fixados em espaços devolutos ou de baixo interesse arquitetónico, mas não vi imagens desses cartazes nestes edifícios. E a pergunta é pertinente, ‘Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’

Claro que estes prédios em esqueleto, qual imagem de uma população subnutrida, os seus ocupantes à margem do sistema, não são, não estão dependentes de 1 nem 1000 arquitetos que os salvem. Mas provavelmente será altura de reunir autarquias, sociólogos, psicólogos, antropólogos, mecenas e arquitetos e discutir o que fazer com estes espaços. Saiu no público uma reportagem que anunciava que as casas vazias em toda a Europa facilmente poderiam ‘albergar todos os sem-abrigo do continente’. Num episódio do programa de carros britânico ‘Top Gear’ houve um episódio em que os testes dos carros decorreram numa cidade, em Espanha, fantasma. Era uma cidade inteira construída, cheia de casas terminadas, com direito a aeroporto e tudo, completamente deserta. Nunca antes habitada. O cenário fica mais frio que o dos filmes western, não se trata de uma cidade abandonada, trata-se de um espaço à escala de uma cidade que foi pensado, desenhado, planeado e construído para uma população que nunca chegou a aparecer.

O novo conceito de ruína antecede a vida do edifício. É um nado-morto. Uma tristeza, uma infelicidade. A ruína é agora o edifício em esqueleto, como o condomínio em Vila Franca de Xira. Não podemos dizer que não se podia prever, mas seguramente construtores falidos e ocupantes destes espaços sem condições foram surpreendidos e ficaram presos neste lado negro do sistema. Uns mais que outros, seguramente. Mas agora que aqui estamos urge pensar, o que fazemos? O que fazer com isto? ‘Olhe à sua volta’