Quando o tempo não chega!

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A MR está finalmente no infantário e a adorar. A adaptação tem sido espetacular, não podia estar mais feliz. Todos os meus/nossos receios foram brindados com resultados melhorados, come melhor, dorme melhor, brinca melhor. Já anda. Já diz que tem cocó na fralda, pede as coisas, diz que não, dá miminhos e pede para fazer ó-ó.

Nós estamos melhor. Eu estou melhor. Tenho finalmente algum bocadinho do meu dia só para mim. Um bocadinho. Mas sabe a mel. É ouro, é o meu bem mais precioso a seguir à minha filha. Tenho os 5 minutos de carro desde o infantário ao meu trabalho. Tenho o percurso contrário para a ir buscar. E as horas de almoço.

AS HORAS DE ALMOÇO! Parecem 3 horas por dia e ao mesmo tempo voam em 30 minutos. É na verdade uma hora e meia. Dá tempo de vir a casa, tirar loiça lavada da máquina, deixar lá a suja, tratar do meu almoço enquanto adianto e planeio o jantar, fazer uma máquina de roupa se for caso disso e/ou tirar roupa do estendal. Fazer as camas, descalçar-me… E almoçar sentada no sofá, geralmente a ver tv. Tão simples, limpo, fútil, só e somente, eu, o sofá, a sopinha e uma sitcom.

Ser mãe é uma coisa maravilhosa. Mas quando se diz que é um trabalho a tempo inteiro é exatamente isso. É limpar, arrumar, amar, cuidar, ser enfermeira, saber negociação e um pouco de todas as áreas, é ser professora, atriz, costureira e cozinheira. E o trabalho decorre 24 horas por dia, lá podemos dormir, mas se houver trabalho temos de estar disponíveis a qualquer hora. E com um sorriso na cara, de preferência. Felizmente estes serezinhos têm-nos nas palminhas e ao ver aquela carinha, seja a rir ou a chorar não há coração de mãe que não se derreta. Obrigada Natureza, por facilitares esta parte do trabalho.

Desde que a MR nasceu que estive em casa com ela, e sim, dediquei-me 24 horas por dia a este amado trabalho. Ao fim de 13 meses tive um momento verdadeiramente a sós. Que não era ir a uma reunião a correr, nem ir comprar leite, nem beber um cafezinho de pé que nem dava tempo para sentar. Este tempo de almoço, que também serve para arrumar a casa da noite anterior ou do pequeno almoço, dá-me nem que seja meia hora em que não estou a pensar em nada. Se ela acorda, se tenho de pôr comida a fazer, se temos uma conversa a dois, nada. E desculpem-me, nem telefones atendo. Depois de arrumar a casa a correr, comer o meu saboroso almoço, que já não vai para as calças, chão e toalha, tenho um bocadinho mais para nada fazer. E muitas vezes penso o que posso fazer com este meu tempinho. Chego a fazer listas. Mas na hora da verdade o que eu faço mesmo é nada. Às vezes chego a ficar de tv ligada e cabeça no abstrato.
À tarde quando volto já estou com a minha caganita. Estou disponível, dou-lhe toda a minha atenção, depois banho, jantar, cama e mais umas horinhas partilhadas a dois e a arrumações.

E neste bocadinho entre o deitar-se dela e o nosso é o esticar o tempo ao máximo. Para nós e para cada um de nós. Pôr em dia todas as coisas por favor, e tentar que o dia de amanhã não comece logo à meia-noite. Mas lá vem o dia seguinte inevitavelmente e a caminho da azáfama que às vezes parece que começa à meia -noite mesmo, sempre sorrio e adormeço a pensar no que vou fazer no dia a seguir, na minha hora de almoço 🙂

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Momentos a dois

Acontece que (alguns) casais discutem. Acontece. Têm problemas, zangam-se, irritam-se, tentam com muita força chegar a acordo, mas às vezes tentam com tanta força que não conseguem. E depois da zanga vem o porquê. Porquê? Porque é que nos passámos tanto ou estamos tão irritados? Esperançosamente atingimos o momento de clareza em que decidimos que precisamos de passar mais tempo juntos, ou mais momentos de lazer.

Assim combinámos que quinzenalmente a MR iria passar uma manhã a casa dos avós ou padrinhos para nós termos momentos a dois. É preciso antes de explicar o que fazemos nesses momentos, um bocadinho mais sobre nós. E sim vou revelar o que fazemos nessas horas.
Os orientais, mais concretamente os japoneses, consideram o espaço da casa uma extensão de si e nesse sentido também a sua limpeza faz parte da sua higiene pessoal. Eu sinto-me nesta linha de pensamento. E por sorte ou destino ou escolha, acontece que o meu querido marido partilha deste sentimento. Antes de ter engravidado começávamos as limpezas sábado de manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço, eu tratava das zonas húmidas (casa-de-banho e cozinha), ele tratava dos motores, vulgo aspirador, depois era limpar o pó e arrumar para mim, lavar para ele e quando acabávamos tomávamos banho. Acabávamos por volta das 16horas exaustos mas felizes, no sofá, num almoço tardio, a inspirar profundamente o ar limpo e fresco da nossa casinha. Todos os sábados.

Quando engravidei enjoei horrores e não podia sentir o cheiro de nada, muito menos produtos de limpeza. Quando passaram mais os enjoos fiquei inchadíssima por isso nem me baixar podia. Finalmente a MR nasceu e eu não tinha tempo para nada, mal dormia e o tempo livre acabava por ser para trabalhar, resumindo, soube muito bem ter ajuda de uma empregada nestas alturas.

Acontece que há algum tempo desabafei como tinha saudades dessas manhãs/tardes de limpezas. E imediatamente trocámos um olhar cúmplice. Percebemos que precisávamos desse nosso ritmo de limpar alma enquanto esfregávamos um pedacinho de chão. Ridículo, pensam vocês, tiramos uma manhã de 15 em 15 dias para limpar?!?! É exatamente isso que fazemos. Entregamos a cachopa a cuidados familiares e limpamos a fundo uma parte da casa. No fim vem o nosso banho e a sensação de limpeza a partir de dentro.

Hoje foi dia de limpar. Bom, se algum dia nos cansarmos disto claro que podemos tirar a manhã para o que raio nos apetecer, mas isto é exatamente o que nos apetece agora. Limpar. Já reza o ditado, ‘não há nada que água e sabão não limpe. Só as más línguas.’ Neste caso até a alma fica purificada. E nem foi preciso esfregar muito.

 

Correr

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É como fugir. Mesmo quando não é. Bem sei que é o desporto que está na moda, mas sempre adorei correr. Não é para me salvar da manada de corredores, nem fui sequer nunca uma corredora por excelência, daquelas que correm todos os sábados, faça chuva ou haja sol. Corria. Descobri isto lá para os meus 15 anos, corria com umas amigas da minha turma, descobri que tinha bastante jeito e uma boa endurance e vamos lá disto.

Quando engravidei interrompi a corrida e enquanto amamentava também não dava muito jeito, quem não sabe a que me refiro fique sabendo que dói. Entretanto parei de amamentar e entre o não-tenho-tempo e o estou-em-baixo-de-forma, não consegui voltar às passadas largas. Finalmente nas férias, em família, consegui babysitter para a cachopa e lá fui correr com o Z.

F-A-B-U-L-O-S-O!!! Ahhh!… Damos uma passada, e pomos o pé à frente do outro e parece que os nossos pés lutam para ver quem chega primeiro, e o nosso corpo é arrastado sem sequer ter pedido, e lá vamos nós, e o mundo fica para trás, pequenino, pequenino, porque nós vamos a correr e a correr saímos de todas aquelas coisas que estão mal na nossa vida, porque o vento nos bate na cara e no corpo e sacode os problemas.

E fica difícil, queremos desistir, o nosso corpo fica a tremer, a perguntar, porquê continuar? E bate no chão com força a cada passada e olha para trás, mas está tudo tremido, só se vê para a frente, onde o vento limpa a cara dos cabelos que se soltam. E continuamos, resistimos, mesmo devagarinho os nossos pés não param, um depois do outro, a ver quem chega primeiro.

E de repente, correr deixa de ser fugir, e começa a ser um regresso. Ao meu corpo, ao que era, ao tempo para mim. A mim. Mim. Mim, mãe, meu, minha Maria. Mas esta volta é só minha e esta passada sabe-me a libertação. Em chamas, o corpo aos gritos, em busca de uma meta. Minha, única e pessoal. E de repente o que começou com uma partida, largada e fugida, é um simples regresso.

Ser mãe é o momento mais altruísta da vida de uma mulher (o mesmo será equivalente para um homem) porque é o verdadeiro escolher outro em detrimento de si. Quero muito pintar unhas. Mas tenho de trabalhar e quando não estou a trabalhar estou a cuidar do bebé, ou a dar banho à criança, ou a ajudá-la nos trabalhos de casa, ou a tratar da casa para haver roupa, comida e outros confortos básicos. E o tempo não chega para arranjar as unhas, o cabelo, correr, ler, e outros ócios. O tempo não chega. Vai chegando. Como quem sai para uma corrida e tem de voltar. Voltar.

Entre

Foi a minha madrinha que me apresentou esta rubrica do Público e eu passei a adorar. Recente mãe, fragilidades idênticas, esperanças, desejos, medos, há uma série de pontos onde me revejo. Tem uma escrita gostosa, séria e com graça, bem ao meu gosto. E o último post que li foi este. Adorei o título. Claro que é. Claro que sim. É isso mesmo, um bebé representa tarefas, e não só. No meu caso por exemplo, havia imensas coisas que eu fazia em casa sem que o Z desse por isso, pois trabalho mais perto e acabava por conseguir chegar a casa o tempo antes o suficiente para despachar ‘tarefas’. Desde que a bebé nasceu não só há mais tarefas como eu me indisponibilizei mais e este acumular de coisas desiquilibra-nos. É um bocado isso, parece que ter filhos, sobretudo na fase em que são menos autónomos, é uma espécie de caminho perto de um precipício e temos de estar num estado muito zen ou então ter muito cuidado porque o risco de cair é grande. Andamos sempre a discutir quem faz o quê, de quem é a vez agora e quando chegamos a casa às vezes nem dá para tirar o casaco, vamos a correr encher a banheira ou aquecer sopa, ou o que seja.

Mas mais que tarefas tenho a sensação que o meu dia ficou de repente confinado a entre-refeições. E tudo se resume ao que consigo fazer nesses entre-tempos. A MR come 5 vezes ao dia, pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia. Basicamente fico com 5 períodos de tempo. Passando 1 deles a dormir, restam-me 4. Desses 4 o primeiro é basicamente para me arranjar, arrumar a casa de manhã da utilização da noite, tomar o pequeno-almoço, preparar sopa da miudinha, dar um jeito a cozinha ou roupa e pimba!, 3 horas passaram. O segundo tempo é entre almoço e lanche, é quando tenho mais tempo, são 4 horas, ela dorme uma sestinha, a minha avó ou madrinha dão-me um apoio e eu ponho emails em dia, trabalho, escrevo, pago contas, faço listas de tarefas, risco tarefas de listas e quando dou por mim já tenho um passarinho de biquinho aberto à espera de comida. No terceiro tempo aproveito para tratar de roupa ou loiça, tratar do meu lanche, do nosso jantar, de preparar o banho dela e passa a correr. Por fim depois da papa lá vai para a caminha, dorme mas sempre chamando por nós de vez em quando, nós jantamos, preparamo-nos para a noite, arrumamos cozinha, estamos juntos, conversamos despachamos assusntos pendentes. E foi… já é hora de dar a mamada do final de dia, o marido a ir deitar-se, e entramos no período na noite, dormimos todos (felizmente temos uma bebé mesmo abençoada).

Adaptei nestes últimos tempos as minhas vontades, as minhas preferências a oportunidades. Agora não se trata tanto de ter gostos ou hábito, trata-se de aproveitar janelas de oportunidade. No meio de todas estas tarefas e correrias perdi a minha aliança de casamento. Não é falta de amor querido marido, mas no meio do corre corre nestes entre tempos entre roupa loiça, colo e esfrega esfrega na roupa sempre com uma nódoa de sopa, bolçado ouqualquer coisa que nem sabemos bem como lá foi parar, caiu, desapareceu. E agora vamos renovar este pedaço de prova de qualquer coisa que nos prometemos, esta materialização do casamento. Num entre-tempo, vamos festejar a nova peça de joalharia.