F de férias

Ser o filho do patrão é do pior que há. Nem se é o patrão, nem se é colaborador. É aquela posição que não tem a maior responsabilidade, nem tem o descanso. Nem o maior nem o menor ganho. Se algo ameaça correr mal assombra a culpa… é muito pior que a responsabilidade. E se corre bem é espetacular ficamos muito felizes. Que tenhamos feito um bom trabalho e que possamos ajudar a família. Fomos bons trabalhadores. Mas o ganho não é exatamente nosso. É dos nossos e de todos nós. O coletivo.

Enfim, acho que só me entende quem esteve ou está na situação. Porque pior de tudo são mesmo as férias. Um patrão tem férias quando quer. E nunca recusa trabalho, ou seja, se houver trabalho quando tira férias, paciência, nem reclama, está lá. O filho do patrão tira férias mais ou menos como tiram os colaboradores. E tem uma ou outra benesse do patrão. Mas quando o trabalho vem, lá está, há que trabalhar.

E às vezes é uma posição que acaba por acontecer. Não é exatamente planeada, nem seguramente evitada. Mas vem, instala-se e depois não há muito a fazer. Diz-se então por aí que a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira destrói. Já estou seguramente na segunda geração, mas gostava de acreditar que posso participar na construção e não apenas na manutenção. Defeitos de profissão de arquiteta… Mas dá trabalho. Muito trabalho…

E as férias… Lá se encaixam como se podem. E mesmo quando alguma coisa sobra para estes dias sempre pensamos ‘Pelo menos estamos de férias’, mesmo enquanto tratamos de trabalho.

Anúncios

Mais queixinhas…

Hoje estou numa de queixinhas. Não consigo parar. Às vezes fico de saco cheio e se não sair acumula, enquista… Então mais vale deitar cá para fora. Sim, eu sei, torna-se chato, mas é já por isso que aviso no início do post. Quem quiser não lê e volta no próximo…

O João Miguel Tavares escreveu um artigo há pouco tempo sobre esta coisa de ninguém falar dos homens-pais. Que as mulheres conquistaram nos últimos anos o espaço para se queixarem e toda a gente já ouviu que as mulheres têm de conciliar vidas muito preenchidas e difíceis, mas que parece que deixaram de falar nos homens. E que agora eles são pais, estão presentes e ajudam nas tarefas da casa. E ninguém fala deles e eles também têm vidas difíceis e exigentes. Concordo. É verdade e ainda bem que o escreveu. E até falou de imensas outras coisas numa grande lição de história e que eu não me atreveria a resumir em duas linhas. O Z, que detesta ler artigos enormes, leu e lambeu este artigo e até o postou no seu mural facebokiano e mandou para mim, ‘Vês, vês, vês?!’ Ok, já vi, tudo bem, sim senhor. É verdade. Para além de estar muito bem escrito.

Mas, sim, vem lá o mas… Assim que um homem diz isto, conta o que faz, que trabalha e é pai e ajuda em casa, corre toda a gente a fazer comentários, ‘que bom homem’, ‘tão amigo da mulher’, pai dedicado’, etc. E é verdade. Mas, novamente, para que alguém diga isto de uma mulher… ui… coitada, não invejo a vida que leve porque deve mesmo ser uma mártir.

É que geralmente os homens não fazem este tipo de comentários. Nem a homens nem a mulheres. Estas palavras são das mulheres. E as mulheres não gabam as amigas, familiares ou conhecidas por coisas que elas sentem que estão fartas de sempre fazer.

E não entendo esta lógica. Porque se defenderiam também a si próprias ao defender o trabalho das outras. Mas parece que preferem o caminho do desdém, será isso? Não quero ser injusta mas realmente às vezes sinto-me exausta. De trabalhar com a minha filha em casa. De lhe dar todas as refeições, ainda tratar da casa diariamente, fazer refeições, dormir 4 a 6 horas diárias sempre e no fim ainda ouvir que o meu marido tem de descansar… Pois tem, trabalha, muito, e faz imenso em casa (porque não haveria de fazer se eu também faço??), e está com a filha (nas horas possíveis do seu dia), mas não acho que tenha de descansar mais do que eu tenho ou preciso. ‘É diferente tu estás em casa’. E pronto, meu senhores aí está.

Nunca vou entender isto, mas das mulheres exige-se, não sei muito bem porquê, não sei muito bem o quê… Eu explico. Se trabalhamos em casa temos mais é de estar caladinhas porque não é a mesma coisa que trabalhar na rua, porque quem está num escritório cansa-se muito mais do que quem está sentado, refastelado, a trabalhar em casa. Nem discutam isto por favor, todo o mundo sabe e quem trabalha em casa, só por isso devia ter vergonha. Ainda para mais não tenho nada que me queixar porque temos ajuda de uma empregada doméstica uma vez por semana, coisas que EU deveria fazer e tratar, uma vez que estou refastelada em casa (se tenho tempo para trabalhar também tenho tempo para dobrar roupa e pôr loiça na máquina). E se o meu marido ganha mais que eu, nem que sejam 100 € é ele que paga estas comodidades. E se sou eu que ganho mais devia ter mais vergonha ainda por estar em casa e ganhar mais por isso. Mas se a mulher trabalha fora de casa, tal como o homem… bom, aí tem duas hipóteses, ou é uma coitadinha que não tem outras ‘possibilidades’ (há algo nesta palavra que me deixa absolutamente doida…) e coitadinha, lá vai ela ganhar ‘mais algum’, ou se é uma profissional consagrada e retira prazer do trabalho, e então é uma sacana que não quer saber da família e, imagine-se, ainda é o marido que tem de ir buscar os meninos à escola, coitadinho (do marido e dos meninos).

Será que isto é uma coisa das mulheres? Das mulheres? Para as mulheres? Porque também ninguém defendeu o trabalho das que falam, porque haveriam agora de falar bem das outras? É isso? Ou isto das novas posições nas novas sociedades ainda estão a ser conquistadas?

Não sei, hoje estou especialmente cáustica, é verdade, mas às vezes parece-me que as pessoas se chateiam verdadeiramente é com o bem que estamos com as coisas. Para já, só estão bem a criticar e portanto cada um se incumbe de se rodear de gente que pensa da mesma forma para se proteger e não ser tão atacado, e depois adoram julgar. Julgar quem tem prazer ou está de bem com a vida. Ui, esses são os piores. Toda a gente preocupado em levar uma vida difícil e depois aparece quem se queira rir das dificuldades? Ou é maluco ou um sacana. É o que vos digo…

Dores

‘Quando a cabeça não tem juízo/ O corpo é que paga’. Lembro-me de ouvir esta letra várias vezes e de achar a canção um bocado até sem graça. Foi preciso crescer, e sim, confesso, ver alguns grupos portugueses reinventar o cancioneiro de António Variações para me apaixonar pelas suas letras. Pela sua capacidade de síntese, por ser tão certeiro, pela sua pureza e até pelas melodias.

Tenho andado com imenso trabalho e privilegiando estar com a MR em casa trabalho o que consigo durante o dia e de noite vingo-me profundamente. Podia dizer-se que vivo como morcego, mas a verdade é que apesar de me deitar pelas 3 horas da manhã acabo por acordar na mesma pelas 7, vá 8 horas, num dia bom. E portanto não vivo como um morcego, a verdade é apenas que não durmo (muito).

Mas não é só isso… Bem sei que agora todos dirão, ‘oh, então o que é que querias?!’, mas mesmo assim arrisco contar. É que salto refeições. Não tenho tempo. A minha prioridade é ela. Depois o trabalho. Depois nós. Depois o Z e depois eu. E nunca sobra tempo para eu comer. Quer dizer, sobra vai sobrando e nessas sobras lá vou comendo…

E este fim de semana acordei cheia de dores abdominais… Dores que se foram intensificando loucamente apesar dos ben-u-ron’s e buscopan’s e todas as posições que me pudesse lembrar de adotar… Até que o inevitável aconteceu e tive de ir ao hospital, com suspeita de apendicite.

Depois de esperar muitas horas  para ser atendida e pensando em todo o tipo de coisas (porque é que me sinto tão vulnerável desde que a minha filha nasceu? Parece que carrego o mundo às costas e que todos os males esperam oportunidade de entrar!), lá fui atendida, carrega daqui, grita dali, raio-x e… voilá! Um túnel de ar acumulado e sem conseguir sair. Resultado, dores atrozes semelhantes a apendicite mas que eram resultado de algo, felizmente!, bem mais simples.

E lá vim para casa, o Z a rir e a citar Rei Leão, da Disney ‘Pumba, p’ra ti tudo é gás!’ Enfim, eu é que não achava muita graça que doía e bem… e pus-me a pensar se estaria a fazer algo errado… Talvez António Variações tenha razão e precise de ter mais cuidado… Ou o corpo é que paga.

Impossível

Há dias que são tão longos que quando vamos contar-lhes as horas damos por nós a contar semanas. E as semanas aparecem assim como uma avalanche de acumulação de horas, todas encavalitadas, doidas, entorpecedoras…

É delicioso ter tanto trabalho. Para mim é. Vivo através desta sensação de utilidade. E sim, acredito que mudo o mundo. Acredito que os arquitetos constroem a história, a história dos Homens, desenhando as suas cidades ou pensando naquele elemento junto ao vão onde o espaço se projeta  nos corpos que o habitam e os incita num beijo, num pedido de casamento, ou a forma como o espaço mal pensado origina conflitos ou depressões ou solidão. E eu acredito que mudo o mundo. Uma casinha de cada vez. Um móvel de cada vez. Compondo o espaço um bocadinho de cada vez. Enfim, imagino o que sentirá o arquiteto A. Siza Vieira, entre outros que construíram partes do mundo bastantes significativas. Mas não é pretensão minha, é mesmo aquilo que acredito desta profissão, deste meu saber.

E então entrego-me às linhas que o meu pensamento desenha no papel, enlouqueço com cada projeto, torno-me absolutamente lúcida e apaixono-me loucamente. Este meu saber é mais do que uma coisa que aprendi e faço, é algo que liga o meu dentro e fora, que faz parte de mim, que está mais do que embuído, está embutido como um armário que foi pensado em simultâneo com uma parede.

Mas agora sou mais do que arquiteta. Sou mãe também. Sou mãe, sem também. Sou mãe e arquiteta também. E quero mesmo conseguir trabalhar a partir de casa. E sai-me mesmo do pelo. E cada meia hora de pensamento é interrompido com ela, com papa, com sesta, com uma gracinha. Ou com refeições minhas ou roupa na máquina. E trabalho até às 3 da manhã e acordo entre as 7 e as 8 horas com ela, fresca e fofa a dizer ‘mamamamamamama’. E só abro um olho que o outro ainda está a tentar dormir. E sorrio com um lado da cara que acorda primeiro, o outro já lá vem.

Às vezes consigo deixá-la com a minha madrinha, uma tarde ou umas horas. E venho para casa fazer em 4 horas o que fazia em 6 ou 7 há 2 anos atrás. E foi o caso de hoje. Quando a fui buscar no fim do dia estava cheia de saudades. Louca de saudades (ela e eu). Enroscava-se no meu pescoço, dava-me beijinhos (‘Então deixas-me aqui, e logo eu que gosto tanto de ti!!’), mas estava zangada (‘Abusaste, da próxima vez pergunta lá quantas horas eu quero ficar’), não comeu tudo, batia nas coisas. À hora de deitar estava cheia de sono, o pai leva-a para adormecer, como sempre, e ela olha para mim, lança-se em voo e pede o meu colo com aquelas sílabas contínuas ‘mamamamama’. E eu que queria fechar um projeto, acabar orçamentos para enviar, tive de ficar. E a cachopa, um serzinho de 10 mesinhos de vida neste mundo, este mundo sim, construído por arquitetos, de e para os Homens, este mundo que já sabe tanto, ela mostra trazer conhecimento da Terra que a gerou, olha para mim, sente-me nervosa e demorou 1 hora para adormecer. E eu a tentar estar calma, serena, qual galgo antes de entrar em pista, de corpo suave e descontraído, mas de cauda a abanar freneticamente.

Semanas (e férias)

Com os feriados o Z. aproveitou para tirar férias. Uma delícia. Começávamos sexta e só acabava no outro domingo, ou seja este. Íamos à praia pela primeira vez com a MR, íamos descansar, ele poderia correr, eu punha coisas em dia, íamos pendurar quadros… enfim. Errrrrrrr… Nada disso. Tive trabalho, imenso trabalho. É delicioso. Quer dizer quando fico assim cheia de trabalho vibro. Parece que os meus poros se alinham todos e ficam qual crentes numa igreja a vibrar ao som de Gospel. Não penso em doenças, fico focada. A minha pupila fica dilatada e parece que entro num plano de cinema em que estou parada e tudo à minha volta se mexe a um tempo diferente do meu.

Desde que a MR nasceu que eu não conseguia fazer isto. Ela era o meu foco, a minha atenção. Desde que o Zé foi ganhando mais protagonismo como pai eu pude ir encontrando outros espaços para além de mãe. E este é um espaço fabuloso, onde faço coisas acontecer, onde sinto que posso mudar o mundo, e mudo mesmo, uma casinha de cada vez.

Mas o trabalho vem em alturas não programadas. E quando calha nas férias do marido é uma pena. É ótimo porque fico descansada, e todas as refeições estão asseguradas e ela está bem e eu fico mais disponível, mas desencontra-nos aos dois. Deitamo-nos a horas diferentes, levantamo-nos a horas diferentes, comemos em 15 minutos apenas. Não há passeios em família, porque todos os bocadinhos são para trabalhar ou reunir com clientes, fornecedores, etc.

A caganita já diz mamã e agora di-lo nas situações em que mais me aperta o coraçãozinho, depois de eu sair ou quando fecho a porta da casa de banho e vou tomar um banho. Só me apetece voltar para trás e correr a abraçá-la e beijá-la e, e, e… E é o que faço. E salto e aperto-a e fico louca com aquele ‘mamã’.

E passada esta semana tão intensa, em que não dormi quase nada, de desencontros e ausências para dar lugar a outras presenças, sentamo-nos no sofá de domingo e olhamos um para o outro constatando que precisamos de umas férias. A 3 desta vez 🙂

Trabalho

Esta coisa de conjugar trabalho é complexa. A mãe trabalha. Trabalha não remunerada, trabalha um exercício invisível aos olhos (dos outros) que chegam a casa dela e vêem tudo arrumado (e então que trabalho é que houve?) ou vêem tudo desarrumado ( e claramente passou o dia sem fazer nada) e qualquer cansaço visível fica irremediavelmente com o selo de ‘coisas de mães’ ou ‘pois é’…

Desde que a minha filha nasceu que estou em casa com ela. Não é uma novidade no mundo. Tantas mulheres já o fizeram, tantas o fazem, tantas farão… Gostaria muito de conseguir ficar com ela em casa até aos seus 3 anos. Acho que os bebés merecem isso, e se os pais se conseguirem organizar nesse sentido é um luxo sem preço. Acontece que desde que ela nasceu que trabalho. Sim, é certo que não trabalho 8 horas por dia, mas trabalho. Não só como mãe, mas como arquiteta, com e em projetos que exigem de mim muito mais do que consigo dispor.

E mesmo com ajudas o tempo não é suficiente. Como é isso possível? Pode dizer-se que existe tempo insuficiente? Pois para mim sim. Sinto que perdi o controlo da minha casa, da minha vida. Ando sempre a correr atrás de algo. Acordo e vou a correr dar um jeito à casa, trato dos nossos pequeno-almoços e vou a correr arranjar-me, vou a correr tentar responder a e-mails e a correr tratar do almoço dela, almoço a correr e trabalho concentradíssima despachando mais serviço em meia hora que noutra altura da vida em 3, vou tratar dos jantares a correr, banho da caganita, e enquanto o pai a deita lá venho eu para o meu computador. Trabalho o mais que posso, deito-me tardíssimo, na esperança que o dia estiiique, mas só encurto a minha noite. E quando dou por mim estou a ir dormir a correr. Acordo como se tivesse sido atropelada por um camião…

Faço tudo a correr, o que posso, para conseguir estar calma e a desfrutar do tempo em conjunto com ela. Tudo por ela sem me esquecer de mim, de nós, do trabalho. E no fim do dia vou sempre roubar umas horas do dia seguinte alimentando esta ilusão de que o meu dia tem mais de 24 horas.

Talvez não seja o tempo que falte. Talvez eu me falte. De uma forma que remuneração nenhuma podia compensar. E não é novo. Todas as mães o sentiram já, tantas o sentem, tantas o sentirão. Só para mim é que é novo. E enquanto me habituo, conformo ou encontro a melhor vista deste cenário, vou experimentando todas as cadeiras da orquestra. A ver se descubro a minha melhor participação neste concerto.

E por hoje é tudo…